Em um lugar distante das intervenções urbanas, dos ruídos sonoros, da música eletrônica e alta, das imagens televisivas moravam meus avós, especialmente minha avó Dôra (Maria das Dores Correia da Silva). Convivi com essa realidade por alguns anos, observando e compactuando de um ambiente cheio de inocências e limitações.
Ouvir ao canto dos pássaros, o barulho das águas de um pequena nascente substancial da família, as vozes dos cantadores de viola através das ondas da rádio, com a emoção do também conterrâneo Sebastião da Silva e as “pregações religiosas no Evangelho em sua casa” delimitavam o acesso à comunicação que já havia chegado aos centros urbanos e, ali me encontrava com as palavras através de o jornal que embrulhava mercadorias na feira e os folhetos de cordéis, os quais lia para meus avôs que não foram alfabetizados. As descobertas a cada nova sentença e construção me faziam deleitar e acreditar em uma viagem que na minha imaginação seria a mais importante de todas, em “a princesa do mar sem fim” as rimas me conduziam na interpretação da terra dos sonhos, onde tudo era mágico.
Em uma quarta-feria, dia 21 de outubro de 1992 a minha avó voltava de mais um enternamento hospitalar e, aparentemente feliz queria fazer o que mais gostava, comer. Seu prato preferido era feijão verde com carne vermelha (a qual minha avó chamava carne verde), e essa foi sua última vontade atendida. Minutos depois, realizada pela refeição começa a dar uma volta em torno da casa e senta-se em sua cadeira de balança (espécie de assento da região). O almoço desejado pela minha avó foi compartilhado comigo, já a dor da morte, se é que doeu para ela, dilacerou minha alma, pois era ela a pessoa que demonstrava carinho incondicional por mim. E agora quem vai olhar nos meus olhos, tomar ao colo e dizer: esse é meu neto preferido?!
A dor era tão grande que ainda sinto até hoje. Passados 16 anos as lembranças se fincam na memória, apertando o coração, sagrando e vazando o líquido vermelho em forma de lágrimas. A matéria de minha querida avó partiu, mas o seu maior sonho ficou em mim, quele de ser DOUTOR. Às vezes, as pessoas reiais, as quais são responsáveis pela saída do lugar encantado e a descoberta do mundo real, raras alimentam o sonho, várias tecem juntas planos para derrubá-los que chegam a fazer doer e pensar em desistir. Mas, por ELA e por mim, o sonho não acabou. Um dia, esteja aonde estiver, serei DOUTOR e os méritos não serão apenas meus, mas de uma pessoa simples, humilde, sofrida, dedicada, e acima de tudo uma avó que mirava seu neto com olhos azuis e expressava docemente o quanto queria o sucesso.




