
De mim, muitas coisas foram tiradas.
Quando ainda muito jovem tive que trabalhar, trabalhar duro para oferecer melhor condição de vida a meus pais e irmãos. Ao me refirir a retiradas, não estou culpando ninguém, nem tão menos me sentido prejudicado por isso, pois trata-se de uma escolha e, escolha certeira.
Nessa retirada, deixei de ser criança para viver um adulto que residia em mim, pulei de uma fase que muitos vivem até hoje, mesmo com idade adulta, não conheci a Madonna em sua década alvo, estudava os clássicos da literatura, limitado ao material restrito que a pequena escola tinha, a informação demorava chegar, só depois de muitos meses é que o jornal circulava, quando vinha embrulhando aquela roupa de final de ano que meu avô comprava e, eu satisfeitíssimo lia como se fosse notícia extra. A literatura de cordel era minha companheira, isto porque meu avô adorava que eu lesse, uma vez que não reconhecia sequer uma vogal. O cantador de viola era a única freqüência em minha vida, já que meu avô era ouvinte assíduo do programa matinal.
O esforço de Mainha, quando do pouco que tinha, tirava das compras ou então, voltava a pés, caminhando DEZ quilômetros e, com o dinheiro da passagem comprava um caderninho de brochura de vinte folhas para que eu pudesse estudar, dele usava a capa e contra capa, sem perder um só espaço.
É, muita coisa foi tirada, mas sem dúvida o tempo me trouxe risos sinceros, alegrias extremas, amigos verdadeiros e a realização de sonhos.
Bom, todos devem estar perguntando o por quê do título.
Hoje está fazendo exatos 17 anos que a minha pequena Raquel nasceu, quando isso aconteceu eu tinha 9 anos, ficamos na casa da vó Bastiana para que Mainha fosse ao hospital. Naquele dia nascia de Cesariana, o último dos sete filhos dos meus pais e, eu já sentia profunda angústia em ver aquela situação e nada poder fazer para mudar o quadro de minha família; não queria que minha irmã passasse por tudo que meus irmãos e eu passávamos, mas o que faria uma pobre criança de apenas nove anos? O tempo foi passando e os problemas aumentando e, também comigo crescia a vontade de mudar tudo aquilo.
A pequena Raquel era um incentivo que me fazia acreditar e fazer valer a força de vontade, uma vez que até o registro civil foi dado pela inesquecível ZELITA, nessa época era prefeita da cidade e Mainha com vergonha de pedir tal coisa, pediu que eu fosse até a casa da MÃE da pobreza, como era chamada e pedisse o registro para minha irmã. E, eu com apenas NOVE anos fui atendido.
Mais o fato de chegar a pedir muito me entristecia, pois a minha pequena irmã precisaria muito mais que aquilo. Passados seis anos, não suportava mais tanta humilhação, restrição na comida, sandália furada, vazio na barriga… Tudo que me restava era a dedicação exclusiva aos estudos, com toda restrição que era constante.
Uma coisa era certa, se eu mudasse a situação, minha irmã jamais passaria pelas mesmas provações. Surgiu o primeiro trabalho remunerado, uma vez que já tínhamos obrigações com atividades domésticas, isso caiu como solução, minha pequena Raquel já teria tudo diferente; assim foi.
Com a adolescência, ela não foi diferente da maioria; mas sua rebeldia não chegou a afetá-la, até porque o lema pregado é outro, ela cresceu ouvindo a diferença entre querer e precisar.
17 anos se passaram e, minha pequena Raquel cresceu, crescendo com ela um sonho do irmão que é fazer FACULDADE. Isso me faz acreditar que todo esforço é válido, uma vez que a receptividade a faz diferente de muita gente da cidade onde morei.
Nesse dia quero parabenizá-la por ser ouvinte desse irmão que o tempo todo se dedicou por sua melhoria e garantir que enquanto quiser minha ajuda estarei sempre ao seu lado.
Avante minha linda!!!!